Aurea Draconis

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Aurea Draconis

Mensagem por Hummingbird em Sab Jul 28, 2018 9:47 pm


Aurea Draconis
Contam-se sobre as suas grandes asas; tão grandes que podem carregar um bocado de nuvens consigo num único levantar voo. Contam-se sobre os seus dentes e garras; tão afiados e poderosos que conseguem sobrepor as lâminas de qualquer outra arma já construída na terra. Contam-se sobre suas escamas infinitamente resistentes; capazes até de aguentar perfurações e quebrar lâminas dos mais bravos guerreiros. Contam-se sobre o medo, sobre o terror e sobre o fogo e a morte que eles espalham. Mas o que não se conta é que nem sempre eles foram assim. Os dragões, eu quero dizer.

Numa terra não muito distante, há muito mais tempo do que se pode contar, os anciões de cada vilarejo insistiam em repassar seus ensinamentos e sua sabedoria para os que em breve assumiriam o controle daquelas terras. Às novas gerações deveria ser preservado todo um legado de vitória e de bravura. E é nesse legado que consiste a verdade por traz das criaturas místicas que tanto carregavam horrores em seu histórico. Um legado de vitória entre homens e dragões, onde as bestas aladas eram abatidas...porém, nem todas derrotadas.

...

Como assim, Mestre Argus? — questionou um dos discípulos ao sábio mestre — Nem todos os dragões foram derrotados? — e com isso os demais discípulos pareceram compartilhar da incredulidade com que o primeiro e mais ousado questionava.

Todos estavam reunidos no que parecia ser uma peregrinação. Um grupo de mais ou menos 8 jovens discípulos beirando a adolescência, acompanhados de um homem mais velho ainda que não tão velho para ser considerado inapto para cuidar de todos do grupo. Argus, o sábio mestre, permaneceu em silêncio frente a questão dos seus discípulos por mais alguns passos. Dentro daquele silêncio a indignação e incredulidade dos mais novos passou a se espalhar como os raios de sol numa manhã sem nuvens. Murmuravam entre si sobre as tais histórias que seus pais ou vizinhos contavam, questionando as lendas e mitos que ouviram desde criança. Para eles, os dragões não passavam de uma coisa do passado e que nos dias de hoje provavelmente estariam todos  mortos, se é que já existiram algum dia. Mas para Argus, homem importante e sábio como era, as lendas tinham o poder de o silenciar por mais alguns instantes como se precisasse buscar as palavras certas antes de cortar o véu da ignorância que encobre as mentes dos mais jovens.

E assim que chegaram no alto da clareira em que estavam peregrinando, o mestre se pronunciou.

Não se trata de estarem exterminados ou não. — endireitou a coluna para a medida que seu capuz escorria lentamente revelando um rosto maduro e com barba cheia — Mas sim sobre a verdade por traz de tudo que vocês sabem a respeito deles. — concluiu.

Sua voz rouca atingiu aos discípulos com um tom de seriedade mais do que incomum. Havia profundidade naquelas palavras e, mesmo no escuro da ignorância, qualquer um poderia compreender isso. Argus falava como se sentisse um grande incômodo pela realidade em que os mais novos estavam enclausurados. Nos olhos daqueles adolescentes haviam muitas emoções pouco desgastadas. Alguns refletiam um medo jovem e inocente, outros refletiam incredulidade e até dúvida. Mas dentre aquele grupo seleto, um deles e também o mais ousado a lhe questionar momentos atrás era o único que expressava algo diferente. Encanto.

Diga-me, jovem Sheridan, o que te faz pensar que nós humanos vencemos e erradicamos os dragões? — indagou o mestre enquanto se apoiava numa pedra plana cravada no gramado que forrava a clareira.

Errr, eu?! — retrucou com certo espanto.

Todos olhavam para o mais novo enquanto este engolia a seco a vergonha de ser questionado dentro do seu próprio questionamento. De certo que naquele momento todos os demais esperavam que ele fosse repreendido, apenas pelo prazer de ter algo para rir entre os colegas. Alguns até já estavam segurando o riso, ainda que em silêncio. O mestre por sua vez apenas o encarou em silêncio, fitando os olhos cor de âmbar que o garoto tanto fazia esforço de esconder por traz do capuz e do seu manto.

T-ta... — e deu de ombros como se tivesse aceitado a difícil tarefa — Você sabe, nós nunca vimos um por aqui. E nosso reino é um dos maiores das terras do norte. Se eles ainda existissem já teriam atacado a gente, né? — disse ele.

Então segundo o seu raciocínio, os dragões existem apenas com o propósito de destruir, tendo como prioridade, os humanos? — insistiu o mestre.

E não é? Deve ser por isso que eles estão todos mortos... — falou um terceiro. Seu nome era Laszlo. Jovem e imprudente.

E o que faz vocês pensarem que cabe a nós, humanos, decidir o destino de toda a raça dos dragões? — a este ponto, Argus parecia mexer em alguma coisa aparentemente adormecida debaixo daquela pedra onde ele estava sentado. De longe seus alunos puderam ver uma espécie de bicho da terra, talvez um roedor? Estava adormecido e quieto, mas ao menor sinal de perigo o animal se empertigou e rapidamente cavou um buraco mal feito por onde escapou das mãos não tão ágeis do homem sábio. Em verdade, Argus não fez questão de pegar o animal, parecia apenas divagar dentro de suas próprias palavras. O animal escapou e enquanto isso os adolescentes murmuravam entre si sobre a questão que lhes foi feita, mas sem resposta.

Alguns dizem que nós não somos tão diferentes dos animais, e que quando estamos ameaçados não raciocinamos direito e apenas tentamos exterminar aquilo que nos oferece perigo. Mas eu vos digo que nós não temos tamanha dignidade, não...nós estamos num lugar totalmente diferente. — fez uma pausa ao passo que limpava as mãos de terra e as olhava fixamente, atormentado por fantasmas do passado — Nós somos os únicos que estamos acostumados a estar no topo. Nenhum animal nos oferece perigo pois somos capazes de subjuga-los e exterminá-los a hora que nos for conveniente. Mas ao menor sinal de que uma outra espécie possa inverter a situação, temos por necessidade não só destruir um ou dois, mas sim erradicá-los por completo. Mesmo que a ameaça sequer exista além do nosso próprio discernimento. — ao fim, referiu-se à situação entre o pequeno roedor e ele. O bicho fugiu mesmo que Argus não lhe oferecesse perigo, mas a ideia frequentemente reforçada de que os humanos daquela região capturavam os bichos apenas pelo prazer da caça ou alimentação, foi o suficiente para que o animal simplesmente fugisse o mais rápido que pode.

Aonde você quer chegar, mestre? — diferente dos demais, Sheridan parecia mais interessado no objetivo do que na metáfora, e ao perceberem isso todos os alunos voltaram sua atenção para a conversa original.

Eu quero chegar ao ponto em que vocês saibam a verdade, e não precisem mais acreditar cegamente na ideia de que os dragões sempre representaram um perigo para a humanidade pois se realmente o fosse, nós sequer estaríamos vivos agora. — concluiu, seco.

E naquela última troca de olhares, Sheridan viu nos olhos azuis de seu mestre que havia muito mais para se saber no que diz respeito aos Dragões.

(Continua quando eu tiver mais inspiração)

Chapter.1

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